o mundo projeta
na retina do arquiteto
outro mundo.
nova e velha terra
num poema mudo,
estéril e corrupto.
Ah! Utopia de meus projetos,
faze-se-á partida e incompleta…
o mundo projeta
na retina do arquiteto
outro mundo.
nova e velha terra
num poema mudo,
estéril e corrupto.
Ah! Utopia de meus projetos,
faze-se-á partida e incompleta…
há mais pudim no não-pudim
há mais alimento no não-alimento
há mais fome na não-fome
há mais asfalto no não-asfalto
há mais caminho no não-caminho
há mais bandeirante no não-bandeirante
há mais engrenagem na não-engrenagem
há mais lógica na não-lógica
há mais cidade na não-cidade
há mais chinês no não-chinês
há mais guggenheim no não-guggenheim
há mais molécula na não-molécula
há mais fósforo no não fósforo
há mais matéria na não-matéria
há mais essência na não-essência
há mais virtude na não-virtude
há mais vontade na não-vontade
há mais zarathustra no não-zarathustra
há mais carlos no não-carlos
há mais verdade na não-verdade
há mais certo no não-certo
há mais afirmação na não-afirmação
há mais tudo no não-tudo
há mais nada no não-nada
há mais presente no não-presente
há mais passado no não-passado
há mais futuro no não-futuro
há mais arte na não-arte
há mais vida na não-vida
há mais verso no não-verso
há mais alguma coisa na não-alguma coisa
que agora eu já esqueci
percorre quilômetros de idade
em geografia dividida.
em segundos seus primeiros mundos,
descolam-se em segundos.
uma nova era se inicia.
inicia uma era, outra que será.
o que era permanece, e é pretérito
e é presente, futuro… mistério.
o tempo é uma questão de metro.
Como se existisse um instante exato entre as palavras pronunciadas, onde as impronunciadas
se sustentam com tamanha monumentalidade que as primeiras arruínam-se. Como se a luz trans-
cendesse entre as nossas retinas e seu espectro resplandecesse as cores que imaginas, além
da expressão que as reflete. Como se na minha pele, e na minha carne e nos meus ossos esti-
vessem escritas todas as histórias que nunca serão contadas, e que vez em quando escorrem
entre nossos corpos. Como se a imperfeição dos ensaios de sua morte dependessem apenas do
último ato, o qual insiste em atrasar.
“Na vida interessa o que não é vida
Na morte interessa o que não é morte
Na arte interessa o que não é arte
Na ciência interessa o que não é ciência
Na prosa interessa o que não é prosa
Na poesia interessa o que não é poesia
No corpo interessa o que não é corpo
Na alma interessa o que não é alma
Na história interessa o que não é história
Na natureza interessa o que não é natureza
No sexo interessa o que não é sexo
(:o amor que, de resto, pode ser abominável)
No homem interessa o que não é homem
Na mulher interessa o que não é mulher
No animal interessa o que não é animal
Na arquitetura interessa o que não é arquitetura
Na flor interessa o que não é flor
Em Joyce interessa o que não é Joyce
No concretismo interessa o que não é concretismo
No paradigma interessa o que não é paradigma
No sintagma interessa o que não é sintagma
Na política interessa o que não é política
Em tudo interessa o que não é tudo
No signo interessa o que não é signo
Em nada interessa o que não é nada
Interessere.”
Décio Pignátari
visto a data aniversariante de Jorge Luis Borges, traduzo aqui um poeminha que, afinal, é uma maravilha.
SouSou o que sabe não ser menos vão
Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.
Jorge Luis Borges, in “A Rosa Profunda”
Vou tentar descrever brevemente o que poderia ser este trabalho, porém não tão preciso quanto é.
Sua formalização paira sobre um retângulo de retalho de 15×7, de cor bege,
onde no centro está pintada à palavra “verso” de um lado do plano, e no seu verso,
“verso” espelhado. Ambos os “versos” estão na cor negra.
este poema é um dos primeiros de uma série que estou fazendo denominada desaparência,
onde a relação poética entre as “coisas e o ser” estão tratadas de acordo com a interatividade
e a vivência entre ambos.
Þen speke þe henmest kyng, in þe hillis he beholdis,
He lokis vnder his hondis and his hed heldis;
Bot soche a carful k[ny]l to his hert coldis,
So doþ þe knyf ore þe kye, þat þe knoc kelddus.
Hit bene warlaws þre þat walkyn on þis woldis.
Oure Lord wyss us þe rede-way þat al þe word weldus!
My hert fare[s] fore freȝt as flagge when hit foldus,
Vche fyngyr of my hond fore ferdchip hit feldus.
Fers am I ferd of oure fare;
Fle we ful fast þer-fore.
Can Y no cownsel bot care.
Þese dewyls wil do vs to dare,
Fore drede lest þai duttyn vche a dore.
caros leitores, observadores ou até mesmo figurantes.
coloco um poema de longo lastro modernista, aliás compõe o primeiro livro diretamente modernista do manuel. este interagiu na semana de arte moderna, e com gloriosas vaias e estardalhaço público deificou. Hoje é reverenciado… sem vaias é posto como mobília em nossas memórias inabitadas. Não interage visceralmente conosco. não é incomodo, nem mesmo apreciado. De longe é olhado, sem ser visto.
nessa colagem atemporal que proponho, veja.
OS SAPOS
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- “Meu pai foi à guerra!”
- “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: – “Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinqüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas…”
Urra o sapo-boi:
- “Meu pai foi rei” – “Foi!”
- “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- “A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quando é vário,
Canta no martelo.”
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
- “Sei!” – “Não sabe!” – “Sabe!”
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;
Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No porão profundo
E solitário, é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio…